Alkaryan - Os Segredos do Arco-Íris
Aventura e ação entre dois Mundos para salvarem o Planeta
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Porque as margens ouvem
Nelson Maia Schocair
 Texto incidental que serviu ao TCC do Curso de Letras
     Ao discutir a dicotomia denotação versus conotação, um dos argumentadores principiou a discorrer sobre o “ total descompromisso com a verdade histórica”, ou sintática, ou morfológica – ou confusão semelhante –, no que concerne à letra do Hino Nacional Brasileiro. Percebi que o autor da tese implicava especialmente com a frase inicial: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / de um povo heróico [sic] o brado retumbante”, a qual, lida de forma literal, denotaria indeterminação do sujeito. Insistia o antagonista ter aprendido, quando menino, que havia crase em “às margens plácidas”, o que corroboraria a tese da tal indeterminação, haja vista Ouviram “(...) não se referir a nenhum ser em particular”. Consoante afirmação própria, nunca houve o “Brado do Ipiranga”, forjado para ilustrar um ato administrativo sem outras testemunhas – menos crível ainda de “uma simples margem de riacho” – que não os próprios articuladores da Independência.
     Mais à frente, implica com outras frases igualmente metafóricas, esnobando a complexa arte da conotação, ao afirmar que não se pode “conotar o que não se baseia na realidade, no fato”. Ou seja, se não houve o “brado”, não se pode afirmar que as margens ouviram-no. Entende-se a dúvida, pois nem todos dispõem de bagagem literário-cultural suficiente para compreender os ditames da análise contextual.
     O ideário temático, na composição da letra do Hino Nacional Brasileiro, não pode ser analisado apenas à luz da gramática. É imprescindível a adição dos conceitos da literatura, não tanto quanto à definição primordial de seus Gêneros – Dramático, Lírico, Narrativo –, porém, quanto às divisões dos Estilos que os compõem. Essa junção é complexa e é perfeitamente possível compreender a dificuldade de se penetrar no campo sinuoso do sentido figurado.
Hino é um tipo de composição em versos que cumpre o fim precípuo de “enlevar, exortar, elogiar, louvar” uma divindade (função principal); uma associação ou agremiação; um ser a quem se admira; ou uma Instituição, caso específico dos Hinos Nacionais ou de seus Símbolos (vide o Hino à Bandeira). Na medida em que tenciona enaltecer, essa composição lírica tende a se utilizar de artifícios laudatórios, honoríficos ou ufanistas, a fim de cumprir sua função naturalmente conotativa.
     Quando um hino, instrumento de louvor, exorta “Jesus, mostra ao mundo a grandeza de Te louvar com fé, / Orar e ouvir a Tua voz em nós”, a que voz o autor se refere? Quer o criativo cristão, realmente, aludir à razão ou à emoção? Ouvem-se e entendem-se os ensinamentos de Jesus Cristo com seu aramaico antigo e quase indecifrável? Dispõe o autor desses versos de um tradutor instantâneo ou será que mais um milagre é operado pelo Grande Sábio, a fim de que a voz ou seu idioma sejam compreendidos? Não precisaria discorrer mais para obter uma resposta plausível: ou se tem fé, ou não se “ouve” Sua voz.
     Um dos mais laureados clubes de futebol do Brasil, em seu hino popular (composto pelo grande poeta da Música Popular Brasileira, Lamartine Babo), em certo trecho, alerta: “Salve o querido pavilhão / das três cores que traduzem tradição / a paz, a esperança e o vigor / unido e forte pelo esporte/ eu sou é tricolor”. Gostaria o leitor ou a leitora de pintar as paredes de sua casa com tinta “paz”; possuir um carro cor de “esperança”, ou, ainda, vestir um paletó ou um vestido tom de “vigor”? Reflita: construiu-se um contexto real, denotativo, ou se pretendeu aludir a paredes brancas, carro verde e paletó ou vestido vermelho – neste caso, grená? Entretanto, não haverá poética suficiente na determinação adjetiva das cores se não estiverem associadas ao lúdico lirismo de sua concepção de amor e de paixão clubista.
     Da mesma forma, quando o apaixonado Pixinguinha – um dos mestres da MPB – e Otávio de Souza declararam seu amor por uma mulher, usando tons azuis de pena de tinteiro e acordes em tom maior: “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa do amor / por Deus esculturada e formada com ardor / da alma da mais linda flor de mais ativo olor / que na vida é preferida pelo beija-flor”, eles o fizeram com tamanho sentimento que a elevaram a duas categorias que a distinguiram de maneira irrefutável de outros seres humanos: a divindade, “divina”, e a reificação (ou coisificação, transformação de seres humanos em objetos), “estátua”, e a aproximaram da característica típica do Simbolismo do eminente Cruz e Sousa ou do francês Mallarmé. Mais uma vez a exaltação a uma divindade estatuária promoveu o encontro paradoxal entre o real e o figurado.
     Ao analisar o Hino Nacional Brasileiro, é possível compreendê-lo sem a má vontade que caracteriza o cético, o qual se arvora de deus da crítica, como parte de dois estilos literários, independentemente de sua formatação lírica: o Romantismo e o Parnasianismo. Embora pudesse descrever o andamento de sua melodia, cabe neste artigo a leitura poética como premissa maior. A discussão deve ser histórico-literária.
     O Romantismo europeu do século XVIII chegou – com atraso – ao Brasil, em 1836, pelas mãos do poeta Domingos José Gonçalves de Magalhães, com a publicação de Suspiros Poéticos e Saudade, cujo título traz, em si, marcas conotativas em sua concepção lírica. Ou alguém imagina que num “suspiro” possa estar contida a essência da poesia? Quero crer que o título do poema é sintomático. Porém, o poeta que de fato consolidou esse estilo em Pindorama foi Antônio Gonçalves Dias, em sua “Canção do Exílio”, composta em Portugal, no ano de 1843: “Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá; / As aves, que aqui gorjeiam, / Não gorjeiam como lá”. Pronto! Iniciava-se a primeira fase romântica: Nacionalista ou Indianista, cujas bases calcavam-se na personificação da terra, com a supervalorização da natureza; no ufanismo não nacionalista ou xenófobo, porém afeito à doutrinação do amor incondicional pela recém-soberana nação brasileira; e na exposição do índio como o verdadeiro herói nacional, na falta de um cavaleiro medievo.
     Por outro lado, o Parnasianismo, que seguiu o estilo antecessor – corrente poética do Realismo psicológico de Machado de Assis e do Naturalismo cientificista de Aluísio Azevedo – teve em Olavo Bilac o seu “Príncipe” (sem cetro e sem coroa), em Alberto de Oliveira (seu sucessor, igualmente sem aparatos honoríficos) e em Raimundo Correia os artífices de uma linguagem perfeita, métrica, rima, sonoridade ideais a serviço de uma arte que buscava a perfeição da forma e a beleza do vernáculo baseadas na escola grega clássica – Parnaso origina-se de Parnassus, região de montanha da Grécia, onde, segundo a lenda, moravam as Musas. No entanto, quando muito se esmera em intentar a perfeição, esbarra-se, paradoxalmente, na insanidade da imperfeição. O desrespeito voluntário à ordem direta dos termos e das orações cria o caos sintático que dificulta a compreensão do conteúdo. Leia a segunda estrofe do soneto “A um poeta”, de Olavo Bilac: “Mas que na forma se disfarce o emprego / Do esforço; e a trama viva se construa / De tal modo, que a imagem fique nua, / Rica, mas sóbria, como um templo grego”. Em ordem direta teremos: “Mas que se disfarce o emprego do esforço na forma e se construa a trama viva de tal modo que a imagem fique rica, mas nua e sóbria, como num templo grego”.
      Entendendo-se esses dois estilos, pode-se voltar à análise em questão. Como Hino, posto está que “precisa” cumprir sua função ufanista “Ó Pátria Amada Idolatrada / Salve! Salve!”, e o vocativo cumpre bem essa evocação tal qual ocorre em outras partes, afinal conversa-se com a Pátria, como se de vida própria ela desfrutasse. Noutro segmento encontramos: “Nossos bosques têm mais vida / Nossa vida no teu seio mais amores”. Novamente a Pátria é “mãe” que nos acolhe em seu seio (de Mulher, de Mãe, com perdão a Caetano Veloso, de Mátria). Nesse caso, a referência ao Romantismo é tão flagrante que, hoje, possivelmente, Joaquim Osório Duque Estrada seria processado por plágio por Gonçalves Dias ou seus prepostos. Não há dúvidas, pois, que a letra do Hino cumpriu o esperado dele quanto ao tom laudatório a que se propunha.
     Da mesma forma, ao lermos em seus versos “lábaro, plácidas, fúlgidos, penhor, garrida, impávido, colosso”, encontramos o elaborado vocabulário usado na composição dos textos parnasianos. Hoje leríamos, respectivamente: “estandarte, tranquilas, brilhantes, garantia, vistosa, destemido, gigantesco”. Além disso, as desaconselháveis inversões sintáticas – já mencionadas – eram usadas para que houvesse harmonia entre letra e sonoridade.
     Analisemos outro trecho: “Se o penhor dessa igualdade / Conseguimos conquistar com braço forte, / Em teu seio, ó Liberdade, / Desafia o nosso peito a própria morte!”. Ponhamo-lo em ordem direta: “Se conseguimos conquistar o penhor dessa igualdade com braço forte, / Ó liberdade, nosso peito desafia a própria morte em teu seio!” Ao fazermos a leitura das formas verbais empregadas, temos um caso típico de enálage – uso de forma verbal em lugar de outra, mais precisa. Foi utilizado pelo autor o presente histórico no lugar do futuro do presente: “Amanhã eu estudo, mãe!” ou “Só vou à praia no feriado.”, frases tão comuns em nossas lições prosaicas do cotidiano. Essa substituição estilística justifica o uso da conjunção condicional (se) em tempo e modo verbais não hipotéticos – presente do indicativo. Numa leitura mais atual teríamos: “Ó Liberdade, nosso peito (vontade) desafiará a própria morte em teu seio (chão) se conseguirmos conquistar as garantias dessa igualdade”.
     Outros trechos que suscitam críticas – como renitentes palavras de ordem – aludem ao “Gigante pela própria natureza (...) / Deitado eternamente em berço esplêndido”. Os ditosos críticos associam, com profundo desconhecimento artístico, a frase retórica “Brasil, País do futuro!” com a que declara imponente: “(...) e diga o verde louro dessa flâmula / paz no futuro e glória no passado”. Usam falácias do tipo: “...o futuro nunca chega!” ou “Futuro... do subjuntivo!”, além de outras menos afeitas a trocadilhos. Em primeiro lugar, “Gigante”, o Brasil o é pela extensão de seu território e pela exuberância de sua natureza; em segundo lugar, “Deitado” não significa “na cama, preguiçosamente escarrapachado”; antes, denota tomar assento, estabelecer o seu lugar no rol das nações livres e soberanas. Mais uma vez o sentido figurado é força que emana da criatividade, do imaginário de um eu-lírico extasiado por sua conquista. Como na mitologia grega os Titãs eram gigantes que pretendiam ascender ao Olimpo para destruir Zeus, a fim de tomarem seu trono, o gigante Brasil assenta seu lugar no altar da história, ilustrada pelos artífices romântico-parnasianos.
     Diante da exposição histórico-literária, nada mais natural do que procurar entender que “margens ouvem” como testemunhas oníricas e simplórias de um ato que provavelmente jamais ocorreu: o Brado do Ipiranga. Da mesma forma que ela, a “Pátria amada”, pariu os filhos deste solo como autêntica e titânica mãe gentil. Salve! Salve!
Foto de Nelson Maia Schocair
Nelson Schocair
Enviado por Nelson Schocair em 09/11/2017
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